As startups estão entre as empresas que mais sofrem para acessar crédito e incentivos econômicos governamentais durante a crise de coronavírus, conforme publicado pelo colunista Felipe Matos, do blog do Estadão.

Um dos principais motivos para a dificuldade de crédito para startups – e pequenas e médias empresas no Brasil, diga-se – é o modelo de negócios das empresas, que no sistema bancário tradicional é visto com desconfiança.

Na segunda metade de março, o Banco Central do Brasil liberou R$ 1,2 trilhão em recursos para os bancos do país, que prometeram linhas de crédito para salvar as empresas e empregos no país.

A realidade, porém, dois meses depois, é que grandes empresas conseguiram fácil acesso à linhas de crédito, enquanto pequenas e médias empresas – entre elas as startups – têm sangrado:

“Fica claro que opções de crédito não estão chegando até as startups. Os critérios para análise e concessão de empréstimos utilizados pelas instituições financeiras, em sua grande maioria se baseiam em modelos de empresas tradicionais, industriais, que possuem muitos bens físicos em ativo, como máquinas, equipamentos e estoques. Há uma enorme dificuldade em se entender modelos de negócio de alto crescimento, baseados na economia digital. “

Matos escreve que nas startups o ciclo inicial de desenvolvimento é longo, sem faturamento até que o produto seja lançado e comece a ganhar tração. O faturamento, um dos critérios principais dos bancos para conceder linhas de crédito, passa então a ser um impeditivo.

“O fato de startups focarem no crescimento acelerado, mantendo investimentos pesados em inovação e marketing gera balanços deficitários, geralmente cobertos por capital de investidores. Isso não significa necessariamente que não sejam negócios saudáveis do ponto de vista da geração e caixa operacional – ou seja, com saldo positivo na diferença entre receitas e custo direto de operação. […] Essas mesmas empresas, avaliadas pela régua do crédito bancário tradicional, mal conseguem bancar a folha de pagamento de um mês de operação.”

O apoio governamental também está distante do setor, pois programas de crédito e incentivo para pequenas empresas “utilizam um conceito de grupo econômico que exclui muitas das startups investidas”:

“Como nesse caso, os sócios investidores também costumam participar de sociedades em outros negócios, para o governo, essas startups se tornam parte de um grande grupo econômico. Com isso, deixando de ser consideradas pequenas empresas e ficam excluídas de apoios específicos. Ironicamente, o mesmo conceito de grupo econômico não costuma ter peso em benefício da startup no cálculo dos limites de crédito.”

O colunista propõe a criação de fundos garantidores de créditos voltados a empresas de inovação, “permitindo que startups acessem as linhas existentes, sem que precisem oferecer garantias reais”, além de propor outra modalidade de financiamento, a “venture debt”, que toma ações das startups como garantia de crédito.

A dificuldade de acesso ao crédito na crise têm levado o setor a criticar o governo brasileiro, que não tem conseguido ser eficiente no socorro a empresas e trabalhadores durante a crise, apostando em uma reabertura “acelerada”, mas sem dar condições reais de saúde pública à sociedade.

Na reunião divulgada na última sexta-feira, o ministro da economia, Paulo Guedes, diz que o governo iria “lucrar” com as grandes empresa na crise e “perder dinheiro” com as médias e pequenas empresas.

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