Exclusivo: Cointelegraph localiza a suposta wallet do GBB da Recuperação Judicial

O Cointelegraph Brasil teve acesso ao endereço apontado pelo Grupo Bitcoin Banco no processo de Recuperação Judicial e que possuía os 7000.99931246 Bitcoins apontados pela EXM Partners no início do processo de Recuperação Judicial (RJ). Este endereço seria supostamente o endereço que a chave privada estava sob posse do GBB.

Em seu último relatório juntado ao processo, a EXM Partners declarou que, sem avisar, os fundos haviam sido movimentados pelos administradores do GBB. Essas movimentações – uma de 5000.99910936 Bitcoins e outra de 2 mil Bitcoins – foram descritas de forma completa no relatório, porém o endereço da carteira de Bitcoin havia sido ocultado. 

O endereço pode ser conferido aqui.

Contudo, graças à facilidade de rastreio de transações que a Blockchain proporciona, a equipe do Cointelegraph Brasil conseguiu localizar a suposta carteira e suas respectivas transações. Algumas dessas transações, devido às suas características, se assemelham bastante à transações feitas por Mixers. O GBB nega o uso do mixer nas transações.

Mixers são serviços, geralmente usado por hackers e pessoas que desejam ‘ocultar’ o destino de suas transações, desta forma, os mixers, literalmente, embaralham as transações em diferentes endereços para ocultar o endereço final que receberá os Bitcoins.

O Cointelegraph encaminhou as transações feitas pelo endereço descoberto com os dados existentes na RJ para um especialista em cybersegurança e blockchain do Brasil.

O especialista, que pediu para não ter seu nome revelado, destacou que um dos principais fatores que caracterizam transações de mixer é o uso de diferentes saídas com uma mesma quantidade que vai se separando de maneira sistemática.

“As transações indicadas são muito semelhantes ao uso de mixer. Principalmente as que saem da wallet com 7 mil Bitcoin com valor de 2 mil Bitcoins. Elas são divididas em saídas de 17.9999 BTC com vários transferências a medida que vão retirando pequenas quantidades em diversas transações. Isso é muito característico ao uso de mixer”

Ainda segundo o especialista outro fato que chama a atenção é que, geralmente, os mixer usam endereços segwit Bech32 (começando com bc1), o que também ocorre no exemplo, tendo em vista que os demais endereços (que recebeu os mais de 5 mil Bitcoin e o endereço ‘original’ de 7 mil Bitcoin) usam endereços sem segwit (começando com 1), chamados de Legacy Address.

“O uso de mixer aqui (envios do endereço que recebeu 2 mil Bitcoins) é muito possível, porém, revela um certo desconhecimento sobre privacidade. Para ocultar com mais ‘eficiência’ as transações poderia ter sido usado payjoin/p2ep que não usam este esquema de dividir transações com um ‘mesmo’ valor, mas modificam os valores embaralhando-os também”, disse.

Procurando pelo Cointelegraph o GBB negou o uso de mixer e disse que tudo será esclarecido no próximo Relatório da Recuperação Judicial.

“O GBB não confirma o uso do mixer e todos os detalhes estarão na manifestação do GBB para a juíza, em relação ao Relatório Mensal de Atividades, juntado a Recuperação Judicial”, afirmou.

Entenda o caso

Segundo a EXM, empresa responsável pela Recuperação Judicial do Grupo Bitcoin Banco,  durante a visita inicial na sede das Recuperandas, em reunião realizada no dia 17 de dezembro de 2019 o GBB apresentou a empresa uma wallet com 7.000,99930646 BTC “disponíveis na wallet do Grupo Bitcoin Banco (conforme ata – sob sigilo), bem como restou definido entre os presentes a apresentação mensal da respectiva movimentação ocorrida no período, com o objetivo de prestação de contas ao Administrador Judicial”;

Contudo, sem avisar a EXM o GBB teria feito uma movimentação destes valores, deixando apenas 0,000006 BTC na wallet apresentada durante a RJ.

“Todavia, em consulta pública efetuada pelos representantes da EXM Partners, através do site blockchain.com, foi constatado que as Recuperandas efetuaram a movimentação daqueles BTC para outras chaves, restando somente o saldo de 0,000006 BTC na chave informada inicialmente em 17 de dezembro de 2019, conforme demonstrativo inserido no corpo do RMA”.

Desta forma, a EXM passou a questionar o GBB sobre a movimentação e em qual wallet estavam armazenados os recurso, que, sendo a empresa contatou o saldo de BTC (7.000,99930646 BTC) foi movido para outras chaves, nos valores de 5.000,99910936 BTC e 2.000 BTC.

“Entretanto, apesar de diversas indagações efetuadas ao Sr. Cláudio de Oliveira, bem como a todos os administradores do Grupo GBB na oportunidade presentes, não foi obtida a esperada explicação/prestação de contas por esta Administradora Judicial, mas tão somente a solicitação de novo prazo e nova reunião para tanto, por parte das Recuperandas”

A EXM concedeu novo prazo e realizou uma nova reunião com o GBB visando identificar o ‘paradeiro’ dos Bitcoins transferidos. Neste novo encontro, realizado em 23 de Abril, o GBB apresentou uma carteira que seria a do cliente do Bitcoin, o Bitcoin Core, contudo não foi fornecido pelo GBB as credenciais de acesso, inviabilizando, segundo a EXM, a identificação real da posse do referido endereço.

“(…) na tentativa de desvincular os saldos existentes na carteira original de propriedade do Grupo Bitcoin Banco, diferentemente das demonstrações ocorridas em 17 de dezembro de 2019, foi apresentado pelos representantes das Recuperandas um saldo na tela de um sistema diverso, denominado “Bitcoin Core”, no montante de 7.089,58263542, o qual, segundo a administração das Recuperandas está em poder do Grupo.

Ocorre que, em que pese a insistência desta Administradora Judicial para conseguir acesso ao detalhamento das wallets no sistema “Bitcoin Core”, bem como o histórico da movimentação de criptomoedas – chaves que compõem o referido saldo – tais informações não foram fornecidas, não sendo possível afirmar que as wallets de destino são de fato de titularidade/propriedade do Grupo Bitcoin Banco”, destaca a EXM.

Porém a EXM ressalta ainda que o saldo apresentado pelo GBB não ‘bate’ com o saldo verificado na blockchain.

“Entretanto, ao analisar o saldo apresentado em tela no sistema “Bitcoin Core”, foi possível que os representantes da EXM Partners constatassem que alguns valores não trasmitem a realidade, visto que a wallet que possui o montante de 5.000,99910936 BTC (conforme consulta pública em blockchain) está apresentada no referido sistema com o saldo de 5.000 BTC (omitindo 0,99910936 BTC). No tocante a isto, insta reiterar que, em que pese a insistência desta Administradora Judicial para conseguir acesso ao detalhamento das wallets no sistema “Bitcoin Core”, bem como o histórico da movimentação de criptomoedas – chaves que compõem o referido saldo – tais informações não foram fornecidas”

Diante dos fatos a EXM faz três questionamentos ao GBB, uma delas, referente a transferência dos 2 mil bitcoins que foram ‘pulverizados’ em cerca de 101 endereços. 

“(1) Por qual motivo ocorreram as movimentações da wallet (originalmente registrada em ata – sob sigilo)?

(2) Quanto ao saldo de 5.000,99910936 BTC, identificado em wallet diversa daquela inicialmente informada – Permanece sob o controle de movimentação e propriedade das recuperandas atualmente? Em caso positivo, é imprescindível que demonstre através de movimentações da moeda respectiva, de forma que seja possível a checagem pública, inclusive por esta Administradora Judicial.

(3) Em relação ao saldo de 2.000 BTC, que foi transferido para outra chave, e, subsequentemente, transportado (de maneira “pulverizada”) para outras 101 wallets (compostas por 100 transferências de 17,99999895 BTC – equivalente à R$ 732.892,02 na cotação do dia 05/02/2020 e, ainda, 1 transferência no montante de 200 BTC – equivalente à R$ 8.143.290 na cotação do dia 05/02/2020) – Permanece sob o controle de movimentação e propriedade das recuperandas atualmente? 

Sobre o fato o Grupo Bitcoin Banco ressalta que:

“O Grupo Bitcoin Banco apresenta, abaixo, informações complementares de quatro tópicos específicos do RMA – Relatório Mensal de Atividades – relativo ao período de dezembro de 2019 / janeiro, fevereiro e março de 2020, expedido pelo Administrador Judicial – AJ – da EXM Partners.

MOVIMENTAÇÃO DE SALDOS DE BTC – O Grupo Bitcoin Banco informa que realizou o procedimento de transferência do saldo de 7.000,99930646 BTC da chave principal para aproximadamente outras 100 chaves pulverizadas, no sentido de proteger o ativo principal de seus credores de possíveis bloqueios judiciais. A movimentação foi justificada devido ao fato da suspensão temporária da Recuperação Judicial no início de 2020. O setor de compliance do GBB informa que o histórico da movimentação de criptomoedas vão ser esclarecidos e divulgados no próximo relatório do Administrador Judicial”, disse em nota oficial.

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