CEO do Nubank aposta em sobrevivência de fintechs na crise e diz que open banking vai aumentar competição

O CEO do maior banco digital do Brasil, o Nubank, David Vélez, deu entrevista ao portal da Revista Veja falando sobre os impactos da crise do coronavírus na fintech e nas perspectivas do setor diante da pandemia e suas consequências sociais e econômicas.

Na entrevista, Vélez destaca o desempenho do Nubank desde o início da crise e diz que as pessoas estão buscando bancos digitais diante das dificuldades de deslocamento diante da perspectiva de lockdown:

“Desde que começou a crise, o número de clientes do Nubank com mais de 60 anos já cresceu mais de 8% [entre os idosos]. Era uma área demográfica que ainda não tínhamos penetrado muito. Mas com a crise, essas pessoas não podem ir a agências bancárias, e elas passaram a utilizar os bancos digitais pela primeira vez. Estamos nos beneficiando dessa mudança comportamental. O mundo bancário pós-pandemia será muito mais digital e essa mudança nos ajuda.”

Ele ressalta que a crise vai impactar startups e fintechs, e diz que o mundo pós-pandemia pode beneficiar as empresas que sobreviverem a ela:

“Se as fintechs conseguirem aguentar e atravessar essa crise, o mundo que existirá depois vai ser muito mais aberto aos produtos que elas oferecem em relação ao que era antes. É importante tentar aguentar agora e ser mais agressivo na retomada. Eu acho que essa filosofia de crescimento a todo vapor, sem olhar rentabilidade no modelo de negócio, talvez funcione só nos Estados Unidos ou na Europa, onde, acredita-se, existe capital infinito. No Brasil, o capital sempre foi muito escasso. Não dá para pensar em crescer sem ser rentável ou ter um modelo de negócios bem estruturado.”

Vélez também diz que pequenos e microempreendedores têm tido dificuldade de acessar o crédito e que o governo federal deveria estar compartilhando os riscos junto a bancos e fintechs:

“Hoje, as fintechs estão muito bem posicionadas para ajudar a levar recursos seja para consumidores ou pequenas empresas em todo o território brasileiro. Quase 210.000 pessoas receberam os aportes da Caixa pelo Nubank. Então, as fintechs estão muito bem posicionadas nessa crise, mas o problema é que elas não têm a capacidade de tomar 100% desse risco. E aí que compartilhar esse risco com o governo, talvez por meio do BNDES, ajudaria a fazer com que as fintechs consigam liberar mais empréstimos e a juros menores para esse microempreendedor.”

Ele lembrou das medidas tomadas pelo Nubank para diminuir o impacto da crise sobre os clientes, como diminuição de juros no cartão e parcelamento de dívidas a juros baixos, como o Cointelegraph Brasil já noticiou.

David Vélez diz que a regulamentação do Open Banking no Brasil pelo Banco Central deve aumentar a competitividade das fintechs com os grandes bancos, tornando o mercado mais atraente para os clientes:

“Entendemos que toda essa linha de open banking vai facilitar bastante, não só porque todas as barreiras vão embora e vai ficar mais fácil para o consumidor escolher o meu produto, mas também porque hoje os bancos têm uma grande vantagem em termos de dados. Eles têm bancos de dados internos, algo que as fintechs não têm, o que nos deixa em desvantagem. Parte disso explica porque a taxa de juros não cai tanto como deveria.”

Finalmente, o CEO do Nubank lembra que a pandemia impactou a jornada de trabalho no banco, que passou para o esquema de home office diante da impossibilidade de deslocamento de funcionários. Ele também aposta que as formas e relações de trabalho devem mudar depois da crise:

“A primeira mudança é que a crise forçou as empresas a experimentarem o home office, algo que muitas tinham receio. Não acredito que o pós-crise será 100% remoto, ainda vão existir escritórios, mas o espaço físico se tornará cada vez mais opcional e não algo mandatório. Além disso, a crise pode mostrar que o trabalho remoto pode fazer com que as empresas invistam em profissionais diversificados, espalhados por várias regiões no mundo. “

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