‘Brasil ignorou processo de bancarização e agora paga um preço enorme por isso’, diz diretor do ITS-RJ

O advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, Ronaldo Lemos, escreveu uma coluna na Folha de S. Paulo falando sobre o projeto de moeda digital de banco central (CBDC) da China, sobre o processo de bancarização comandado pela potência asiática e como ele foi ignorado pelo Brasil na última década.

No texto, Lemos diz que “há muito tempo já se especulava se as moedas virtuaus não seriam mais cedo ou mais tarde adotadas por Estados nacionais”. Com o projeto de CBDC da China, segundo ele, funcionários públicos já devem receber salários na moeda virtual em maio em grandes cidades do país.

A capilaridade da adoção de smartphones também contribui para a ampliação do processo de implantação da moeda, já que na China a maioria dos pagamentos já é digital, inclusive com moradores de rua portando QR Codes para receberem auxílio.

A situação contrasta com a realidade do Brasil, pondera ele, onde 1 em cada 3 adultos não tem sequer conta bancária. Com a crise do coronavírus, milhões de pessoas têm de recorrer a contas na Caixa Econômica Federal, que não tem conseguido mostrar eficiência nos pagamentos aos não bancarizados.

Na última década, Índia e China comandaram um processo de bancarização intenso, mas o Brasil teria ignorado a importância do problema:

“Países como a Índia e a China promoveram, nos últimos dez anos, um processo de bancarização gigantesco. O Brasil ignorou essa questão e agora paga um preço enorme por isso, cobrado em vidas.”

Ele também cita a tentativa do Facebook de lançar sua moeda digital global, o Libra, que enfrenta grande pressão regulatória nos Estados Unidos e na Europa.

O processo também teria estimulado a China a acelerar o projeto de uma moeda digital nacional, prevenindo a economia até do uso político do dólar pela política externa dos Estados Unidos. Segundo Lemos, a CBDC chinesa deve transformar a economia global:

“Para se precaver desse movimento, a expectativa é que o e-RMB seja um passo na criação de outro sistema de transações monetárias internacionais que não precise da rede Swift (criada em 1973) para serem completadas. Em vez dessa rede, adota-se estrutura baseada em blockchain, de aplicação global. Só que, em vez de atrelar-se à imprevisibilidade de várias criptomoedas, vincula-se a uma moeda fiduciária emitida por um Estado nacional.”

Finalmente, ele destaca que “já era achar que criptomoeda é coisa de maluco”, e que as criptomoedas autônomas, como BTC, ETH e Stellar Lumen, já são uma realidade.

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